Cérebros doados no país estão a contribuir para estudos sobre o Mal de Alzheimer

pesquisador a utilizar o microscópio dentro de um laboratório
Fonte: Pexels

Através do Projeto Envelhecimento Cerebral e Biobanco para Estudos no Envelhecimento, mais conhecido informalmente como “banco de cérebros”, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) conta com mais de 4 mil cérebros para análise, os quais foram doados de pessoas que faleceram em função de causas naturais a partir dos 50 anos.

A importância desses cérebros doados está no fato de que eles têm contribuído para os estudos de neuro-cientistas e neurologistas que estão pesquisando sobre as origens das principais doenças cerebrais, como o Mal de Alzheimer, as quais são provocadas pelo envelhecimento do órgão. Apesar de muitos considerarem que essas doenças são movidas pelo acaso, como os jogos de roleta, a ciência está cada vez mais perto de identificar as causas dessas condições.

Recentemente, por exemplo, os pesquisadores descobriram que o Mal de Alzheimer tem sua origem na região do tronco cerebral, e não no córtex, como os especialistas acreditavam que acontecia até então.

Exames e diagnóstico precisos após o óbito

Depois de serem doados à universidade, os cérebros passam por uma série de exames cujo objetivo é identificar se o órgão já possuía alguma lesão cerebral. Além disso, os neuro-cientistas também solicitam aos parentes do doador certas informações sobre o diagnóstico do indivíduo, se existiam indícios de sintomas clínicos relacionados a demência, entre várias outras questões.

Devido aos resultados expressivos obtidos pelo projeto, a FMUSP é considerada atualmente como uma das grandes referências globais na área de doenças neurológicas e neuro-degenerativas. De acordo com a professora Léa Tenenholz Grinberg, que é uma das criadoras do Biobanco para Estudos no Envelhecimento, o grande diferencial dessa iniciativa é que nela os pesquisadores conseguem analisar cérebros que ainda não apresentavam sintomas de Mal de Alzheimer, o que permite que sejam analisados os estágios iniciais da doença e como a mesma progride com o passar do tempo.

busto com a representação de um cérebro dividido em áreas
Fuente: Pexels

Origens do Mal de Alzheimer

Em relação a descoberta sobre as origens da doença, os pesquisadores identificaram que isso acontece na região do núcleo dorsal da rafe, no tronco cerebral. Segundo Léa, essa região, que fica no mesencéfalo, é a que mais produz serotonina do cérebro, e é onde ocorrem várias mutações iniciais que levam ao surgimento do Mal de Alzheimer.

Ao todo, os neuro-cientistas envolvidos nos estudos sobre a doença já encontraram 15 regiões distintas do cérebro onde as lesões se desenvolvem antes de chegar na área do córtex. Entre as lesões mais comuns que causam o Mal de Alzheimer, está o emaranhado neurofibrilar, o qual ocasiona a morte de neurónios e favorece a progressão da doença, assim como as placas extracelulares, que se formam pela junção anormal das proteínas beta-amiloides.

Esse conjunto de descobertas é essencial para que os médicos possam realizar o diagnóstico do Mal de Alzheimer em estágios introdutórios e compreender melhor a relação da doença com sintomas como perda de apetite, depressão e ansiedade. Para compartilhar esses avanços com o restante da comunidade científica, o grupo de pesquisadores da FMUSP participou recentemente da Conferência Internacional da Associação do Alzheimer, realizada em Chicago, e apresentou aos mais de 6 mil presentes os resultados obtidos por esse estudo.